Sento na cadeira preta e fria de frente à ti, espero por redenção.
Tem uma chuva absurda acontecendo lá fora,uma chuva que parece como o meu coração: tempestuosa, aguada e imprevisível.
A janela está aberta,totalmente aberta - quero-a assim para apagar o que eu tenho feito, a pior imoralidade de mim para o meu cerne, curar a mentira da atitude mal feita : fechei as janelas de minha alma.
Os pingos voam alegres e repousam no meu rosto; não me importo.
Eu preciso sentir você, o mundo, eu preciso sentir e sair do meu mundo abstrato, um mundo ao qual criei egocentricamente para esconder-me da realidade e meus problemas materiais. E preciso tanto disso que me entrego sem dificuldades ao tratamento da dor.
Ainda que sejam abstratos, os sentimentos me deixam mais perto da vitória de chegar ao caminho que almejo. É a introdução do livro da minha dor.
Compreender quem sou, refletir , então voar para a terra e finalmente decidir O CAMINHO me parece impossível. Eu corro desesperada entre os corredores da vida e não sei que porta escolher. Há tantas, mas há muito mais insegurança dentro de mim e isso me tolhe completamente.
Mas não quero ser gauche,não quero ser só uma pintura, uma beleza impalpável. Sinto que não nasci para isso; o meu mundo tem poços muito fundos e eles possuem sede de algo que vai além dos aspectos corporais. Eu sei a efemeridade do tempo e o temo.
Se estou dormindo enquanto acordo é porque provavelmente preciso, assim como um bebÊ que trabalha no seu sono eterno. Mas eu não entendo, eu me frusto e grito, e o grito revela a minha dor. Eu não escuto a mim mesma, nem quando sussurro para a minha alma e falo ´´acorde, acorde, o dia já raiou´´. Não recuperei o meu tom, eu o perdi a muito tempo na infância. O que resgatei foram risos estrambelhados como propósito de cura - é apenas o meu ego ferido tentando me surpreender.
O mais incrível é que na minha dor eu estou rindo. Não choro porque não consigo, mas não luto contra ele, apenas não consigo. O choro é a alma triste saindo do corpo, e a minha anda escondida em bosques, perdidas, entre fadas, elfos e gnomos. O mundo deles não é um mundo de formas.
E eu não gosto do meu.
E então eu sorrio, sorrio para a vida, não há mais o que fazer, apenas sorrir.
Estou aqui, olho para ti, não consigo desviar minha atenção. Teu olhar me cura.
E a redenção não virá, porque eu ela já chegou - é você, que olha para mim e sorri, é você que olha para mim, e numa fração de segundos, me cura.
Você é a redenção em forma de gente, e eu não tinha percebido.
E um simples obrigado não irá dizer o quanto sou agradecida pela tua pessoa, pela alma iluminada que tens aí.
Dou-te o meu coração, é tudo o que tenho de mais sincero e precioso.
Nada mais importa.
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