Havia um cheiro imprecuscrito no quarto de uma maneira intensa. Eu conhecia aquele cheiro, era o da decomposição misturado com um aroma doce. Mas um doce nauseante, da cor cinza. É, os cheiros pareciam ter cores, como em uma história em preto e branco.
Tão sombrio era aquilo - os corpos todos espalhados pelo chão, as faces cadavericas contorcidas e esquecidas ali.
Olhando tantos corpos percebi como éramos fragéis, como pareciamos com formigas esmagadas, e no entando, tinhamos criado um enorme louvor ao redor da nossa existencia. Não, não era bem um louvor, veja bem - era prepotência.
Uns julgando maioridade em cima de outros e, no fim, algo abaixo de nós havia destruído a todos, deixado corpos na areia da praia como bonecos de plástico.
Não havia mais uma divisão certa entre o quarto e logo a praia que se extendia a poucos metros de onde eu estava. Alí, em meio a tanto caos, parecia que tantos anos de construções e dinheiro, não eram nada.
Constatar esse cenário era atordoante, quantas vidas foram ceifadas... a morte passeara por alí, e num impeto, levara milhares de vida.
Nada estava vivo, senão a minha pessoa, mas ao longe eu podia escutar algo. Era um som baixo, mas vivo, sombriamente vivo.
Não parecia ser um bicho, parecia ser um choro. Um choro de um bebê ainda frágil.
Algo dentro de mim parecia misturar-se à face doce e morta ao meu redor; aquele cheiro já começara a penetrar profundamente em meus poros. Eu estaria entrando em alucinação ou aquele som era realmente audível e real?
Aquele choro insistente que aparecia constantemente em minha cabeça, o choro de um bebê que aparecera nos meus sonhos, embrulhado em uma manta branca e envolto de uma aura dourada. Era quase enlouquecedor, peguei-me perguntando se era mais sensato fazer o meu trabalho ou apenas ir em busca de um som que poderia não ser real.
Levantei-me da areia, fui caminhando com dificuldade entre os corpos pálidos e rígidos, eu estava com medo. Nunca vira tantos corpos juntos e mortos assim; não se comparavam aos corpos desfigurados de uma sala de anatomia.
A beleza da água do mar à minha frente era incrivelmente contrastante com o que meus olhos podiam observar.
Caminhei lentamente ate ir em direção do choro, e ele me levava a um amontoado de caixas e entulhos, pedaços de concreto - tudo o que a água havia depositado ali de forma bagunçada. Sim, era o choro, o choro de um bebê. E era tão audível, doce e real. E emocionante.
Um bracinho branco mexia-se de forma nervosa, para o meus espanto, entre alguns pedaços de concreto. Havia formado ali uma especie de gruta em torno da criança, era uma coisa quase feita por mãos humanas. Mas não eram mão humanas que tinham estado alí.
Algo sobrenatural parecia ter posto o corpinho da criança com cuidado na areia e a protegido em torno de pedras.
Era quase um milagre, um bebê sobreviver em meio aquilo tudo, em meio aquele fim de mundo. Intensamente perturbador reconhecer a face de uma criaturinha tão pequena em meu sonho - que destino havia levado-me até aquele bebê?
Pensei com os meus botões que, depois de tantos anos, desejando ter alguém em meus braços, ao qual pudesse embalar, a vida poderia trazer-me um presente.
Mas eu realmente nao imaginava que poderia ser daquela maneira; um milagre em meio a corpos em decomposição, como um presente perfeito da natureza.
Sim, ele havia aparecido várias vezes antes de cruzar pelo meu caminho. Aquela criaturinha deveria ser muito especial.
Alguns misterios, pensei, são quase assustadores. Mas naquela tarde senti que era guiada por uma força maior, de uma forma ao qual não poderia sair de alguns acontecimentos.
Como se o destino já estivesse ali traçado, pronto a acontecer. Ou tudo seria apenas fruto do poder de meus desejos e pensamentos?
Havia um milagre ali, cruzando com o meu destino e com a morte, e aquilo parecia maravilhoso. Uma mistura entre o doce e o amargo.